
Mounjaro pode mudar a forma como o corpo utiliza energia, afirma estudo — entenda o que muda
Estudo TABFAT revelou que tirzepatida ativa a gordura marrom no organismo. Entenda o que isso significa e como a nutrição potencializa o emagrecimento.
Priscila QueirozA gordura marrom e emagrecimento são dois temas que raramente aparecem juntos nas buscas sobre perda de peso — mas um estudo apresentado no maior congresso de endocrinologia do mundo em 2026 mudou esse cenário. Pesquisadores descobriram que a tirzepatida, o princípio ativo do Mounjaro, não apenas reduz o apetite: ela também ativa um tipo especial de gordura no corpo que queima calorias ativamente. Se você acompanha o universo das medicações para obesidade, essa descoberta muda a forma como entendemos o emagrecimento — e reforça por que o acompanhamento nutricional é insubstituível nesse processo.
O que você vai ler nesse artigo
- O que é gordura marrom — e por que ela faz diferença no emagrecimento
- O estudo TABFAT: como Mounjaro (tirzepatida) ativa a gordura marrom
- Como a alimentação influencia a ativação da gordura marrom
- O papel da nutricionista no acompanhamento de quem usa Mounjaro
- Medicação + nutrição: uma abordagem mais sustentável
O que é gordura marrom — e por que ela faz diferença no emagrecimento
A gordura marrom (tecido adiposo marrom, ou BAT — do inglês brown adipose tissue) é um tipo especial de gordura presente no corpo humano que produz calor ao queimar calorias. Esse processo se chama termogênese, e é o mecanismo pelo qual o organismo gera energia em forma de calor — especialmente em resposta ao frio.
Diferente da gordura branca — que armazena energia e está associada ao ganho de peso e às doenças metabólicas — a gordura marrom é metabolicamente ativa: ela consome energia. Bebês têm grandes quantidades de gordura marrom (é o que os mantém aquecidos). Em adultos, a quantidade é bem menor, mas ainda existe — principalmente na região do pescoço, ombros e ao redor da coluna.
Gordura branca, marrom e bege: as diferenças que importam
- Gordura branca: armazena energia (calorias), predomina no tecido subcutâneo e visceral, está associada à obesidade e à inflamação crônica
- Gordura marrom: queima energia para gerar calor (termogênese), é rica em mitocôndrias (daí a cor marrom), presente em pequena quantidade em adultos
- Gordura bege: um estado intermediário — células de gordura branca que, sob estímulos específicos (frio, exercício, certos compostos alimentares), adquirem características termogênicas semelhantes às da gordura marrom
A descoberta de que é possível estimular a conversão de gordura branca em gordura bege — e a ativação da gordura marrom — abriu uma nova fronteira para o tratamento da obesidade. E é exatamente aí que o estudo com Mounjaro entra.
O estudo TABFAT: como Mounjaro (tirzepatida) ativa a gordura marrom
O estudo TABFAT, apresentado no congresso ENDO 2026 da Endocrine Society pelo pesquisador Rok Herman, M.D., do University Medical Centre Ljubljana (Eslovênia), trouxe uma descoberta importante: a tirzepatida ativa a gordura marrom de forma significativa — independentemente da perda de peso em si.
O ensaio foi randomizado, controlado com placebo e acompanhou mulheres pré-menopáusicas com obesidade por 24 semanas. Os resultados foram expressivos:
- No início do estudo, 41,2% das participantes apresentavam atividade de gordura marrom detectável por PET/CT (um exame de imagem de alta precisão)
- Após 24 semanas com tirzepatida, esse número subiu para 64,7% — um aumento de cerca de 57% na proporção de participantes com gordura marrom ativa
- No grupo placebo, nenhuma mudança comparável foi observada
- Os pesquisadores também identificaram sinais de conversão de gordura branca subcutânea em gordura bege — um fenômeno que potencializa ainda mais o gasto energético
Segundo reportagem publicada em O Globo, o pesquisador Rok Herman concluiu que a tirzepatida "parece modular o gasto energético no nível tecidual", abrindo caminho para terapias que combinam controle do apetite com ativação termogênica — dois mecanismos que atuam juntos na perda de peso.
Isso significa que o Mounjaro não funciona apenas "fechando a torneira" do apetite. Ele também pode "ligar o fogão" do metabolismo — pelo menos em parte. E essa distinção tem implicações práticas para todos que usam ou consideram esse tipo de medicação.
Para entender o gasto energético individualizado do seu corpo — incluindo quanto seu metabolismo basal contribui para a queima de calorias diária —, a calorimetria indireta é o exame que a nutricionista usa para medir o metabolismo real de cada paciente. Esse exame é uma das ferramentas mais precisas disponíveis para personalizar o plano alimentar.
Como a alimentação influencia a ativação da gordura marrom
A boa notícia é que a alimentação tem papel direto na ativação da gordura marrom — mesmo sem medicação. A nutrição de precisão identifica os compostos bioativos e os padrões alimentares que a ciência associa à maior atividade termogênica do organismo.
Alimentos e hábitos que a ciência associa à termogênese
- Capsaicina (pimenta vermelha): estimula receptores TRPV1 e ativa a termogênese via sistema nervoso simpático — efeito documentado em estudos de curta duração
- Catequinas do chá verde (especialmente EGCG): aumentam o gasto energético e a oxidação de gordura; pesquisas indicam efeito sinérgico com a cafeína
- Exposição ao frio controlado: temperaturas mais baixas ativam a gordura marrom de forma direta — é o estímulo mais bem documentado para ativação do BAT em adultos
- Proteína adequada na dieta: o efeito térmico da proteína (cerca de 20–30% das calorias consumidas são gastas na digestão) contribui indiretamente para o gasto energético total
- Exercício físico regular: especialmente o treinamento de força, estimula a liberação de irisina — um hormônio muscular que favorece a conversão de gordura branca em gordura bege
Nenhum desses fatores isoladamente vai "ativar" a gordura marrom com a intensidade de uma medicação. Mas combinados dentro de um plano alimentar estruturado por uma nutricionista, eles criam condições metabólicas favoráveis — e complementam o efeito de medicações como a tirzepatida quando há indicação médica.
Vale ressaltar: segundo as diretrizes da ABESO (Associação Brasileira para o Estudo da Obesidade e da Síndrome Metabólica), o tratamento da obesidade é multiprofissional e inclui mudança de estilo de vida, nutrição individualizada, acompanhamento psicológico e, quando indicado, tratamento farmacológico ou cirúrgico. Nenhuma dessas estratégias substitui as outras — elas se potencializam.
Se você já usa ou considera o uso de medicação para obesidade, entender como o GLP-1 age além do emagrecimento e como a nutrição se integra a esse tratamento é fundamental para tomar decisões mais informadas.
O papel da nutricionista no acompanhamento de quem usa Mounjaro
A tirzepatida reduz o apetite de forma significativa. Isso parece apenas positivo — mas quando uma pessoa come muito menos do que o necessário sem orientação nutricional, o organismo não perde apenas gordura: ela pode perder também massa muscular, densidade óssea e micronutrientes essenciais.
O acompanhamento com a nutricionista durante o uso de Mounjaro (ou qualquer agonista GLP-1/GIP) é fundamental para:
- Garantir ingestão proteica adequada: proteína suficiente preserva a massa magra durante a perda de peso. Em processos de emagrecimento acelerado a necessidade proteica é maior do que o usual — e a nutricionista calcula esse valor individualmente
- Prevenir deficiências nutricionais: com menos volume alimentar, o risco de déficit de vitaminas (B12, D, ferro, zinco) aumenta. A nutricionista identifica e previne essas carências antes que causem sintomas
- Estruturar refeições de qualidade: reduzir quantidade sem reduzir qualidade é a chave para um emagrecimento saudável. Não basta comer menos; é preciso comer melhor — e isso tem técnica
- Monitorar o metabolismo ao longo do processo: à medida que o peso cai, o metabolismo se adapta. Exames como a calorimetria indireta e a bioimpedanciometria permitem ajustar o plano conforme a evolução de cada pessoa
- Preparar para a descontinuação: o que acontece quando o medicamento é interrompido? A nutricionista trabalha para que hábitos alimentares sustentáveis estejam consolidados antes da retirada da medicação, prevenindo o efeito rebote
Em Brasília, muitos pacientes chegam à Nutrifono Clínica Interdisciplinar já usando tirzepatida ou semaglutida, mas sem acompanhamento nutricional formal. O que observamos na prática clínica é que quem combina a medicação com um plano nutricional individualizado alcança resultados muito mais consistentes — e desenvolve uma relação muito mais saudável com a comida a longo prazo.
Entenda também por que o acompanhamento nutricional é essencial para quem usa semaglutida — os mesmos princípios se aplicam à tirzepatida.
Medicação + nutrição: uma abordagem mais sustentável
O estudo TABFAT nos ensina algo além dos números: o corpo responde a múltiplos estímulos ao mesmo tempo. A tirzepatida ativa a gordura marrom, reduz o apetite, melhora a sensibilidade à insulina e ainda pode converter gordura branca em bege — tudo isso em 24 semanas de tratamento.
A nutrição, por sua vez, influencia a composição corporal, o gasto energético, a qualidade das perdas de peso e a saúde a longo prazo. As duas estratégias não competem — elas se complementam.
É comum ouvir de pacientes: "Já tenho a medicação, preciso mesmo de nutricionista?" A resposta é: você pode emagrecer sem nutricionista, assim como pode montar um móvel sem as instruções. Mas o resultado — e principalmente a manutenção desse resultado — tende a ser muito mais sólido quando há um profissional orientando cada etapa.
O que a medicação não resolve é a relação com a comida — e esse é exatamente o ponto que a nutrição e a psicologia abordam de forma complementar. O tratamento da obesidade, quando conduzido de forma integrada, considera não só o peso, mas também a saúde metabólica, a saúde mental e a qualidade de vida total.
Perguntas Frequentes
O que é gordura marrom e por que ela ajuda a emagrecer?
A gordura marrom é um tipo de tecido adiposo que queima calorias para gerar calor — processo chamado termogênese. Diferente da gordura branca, ela não armazena energia: a consome. Maior atividade de gordura marrom está associada a maior gasto energético e melhor metabolismo basal.
O Mounjaro (tirzepatida) realmente ativa a gordura marrom?
Sim, de acordo com o estudo TABFAT apresentado no ENDO 2026. O ensaio randomizado mostrou que a tirzepatida aumentou a atividade de gordura marrom detectável de 41,2% para 64,7% das participantes após 24 semanas — sem mudança equivalente no grupo placebo.
Posso ativar a gordura marrom sem medicação?
Sim. Exposição ao frio, exercício físico, alimentos como capsaicina e catequinas do chá verde, e uma dieta rica em proteína são estratégias com evidência científica para estimular a gordura marrom. O efeito é menor que o de medicamentos, mas real e cumulativo com a constância.
Por que preciso de nutricionista se já uso Mounjaro?
A tirzepatida reduz o apetite, mas não garante qualidade nutricional. Sem orientação, a redução calórica pode levar à perda de massa muscular e deficiências de micronutrientes. A nutricionista garante que a perda seja de gordura — não de saúde.
Qual é a diferença entre gordura marrom, bege e branca?
A gordura branca armazena energia e se associa ao sobrepeso. A gordura marrom queima energia por termogênese e é rica em mitocôndrias. A gordura bege é um estado intermediário: células brancas que adquirem características termogênicas em resposta a frio, exercício ou certos compostos alimentares.
Leia também
- Calorimetria Indireta: o exame que transforma o emagrecimento com base no seu metabolismo real
- Canetas emagrecedoras além da obesidade: o que o GLP-1 trata e o papel da nutrição
Referências
- Mounjaro pode mudar a forma como o corpo utiliza energia, afirma estudo — entenda. O Globo Saúde, 16 jun. 2026.
- Tirzepatide may change how the body uses energy. Endocrine Society / ENDO 2026.
- Diretrizes Brasileiras de Obesidade. ABESO — Associação Brasileira para o Estudo da Obesidade e da Síndrome Metabólica.
O emagrecimento saudável e duradouro raramente acontece por um único caminho. Novas evidências como as do estudo TABFAT mostram que o corpo responde a múltiplos estímulos — e que combinar medicação, quando indicada, com nutrição de qualidade é a estratégia mais consistente disponível. Nossa equipe de nutricionistas em Brasília acompanha pacientes em todas as fases do tratamento da obesidade, com ou sem uso de medicação. Agende sua consulta e descubra qual abordagem faz mais sentido para o seu caso.

Conheça Priscila Queiroz
Nutrição Esportiva, Nutrição na Infertilidade, Nutrição da Saúde da Mulher
Fundadora da clínica Nutrifono, nutricionista esportivo e especialista na saúde da mulher. Atua na menopausa, endometriose, adenomiose, SOP, acompanhamento gestacional e terapia da fertilidade.
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