
Novas canetas emagrecedoras: o que muda no acompanhamento
Retatrutida, survodutida, comprimidos: entenda o que vem por aí nas novas canetas emagrecedoras — e o que não muda no acompanhamento nutricional.
Priscila QueirozSe você acompanha notícias de saúde, provavelmente já viu as manchetes: vêm aí remédios que emagrecem mais de 30% do peso, canetas de aplicação mensal, comprimidos que dispensam a agulha. As novas canetas emagrecedoras em pesquisa realmente representam um salto — mas a conversa pública está pulando a parte mais importante. Neste artigo, explicamos o que de fato vem por aí, o que ainda é promessa em fase de estudo, e por que o trabalho nutricional não desaparece com nenhuma dessas moléculas. Aviso desde já: nada aqui é indicação de medicamento. Prescrição é ato médico, e é assim que deve ser.
O que você vai ler nesse artigo
- Por que se fala em uma nova geração agora
- Retatrutida: o que significa passar de 20% para 30% de perda de peso
- Menos aplicações: mensais, combinações e comprimidos
- Survodutida: quando a qualidade do peso perdido importa mais que a quantidade
- O alerta do pesocentrismo: mais potente não é automaticamente melhor
- O que nenhuma molécula resolve sozinha
- O que fazer agora, sem esperar 2027
Por que se fala em uma nova geração agora
O assunto ganhou força depois do último encontro da Associação Americana de Diabetes, em Nova Orleans, onde os laboratórios apresentaram resultados dos medicamentos que estão na fila. Uma reportagem da Veja Saúde, assinada por Diogo Sponchiato, reuniu esse panorama com endocrinologistas brasileiros, e é a base factual deste texto.
Para entender a lógica da evolução, vale uma simplificação. A semaglutida — princípio ativo do Ozempic e do Wegovy — imita a ação de um hormônio, o GLP-1, que aumenta a saciedade. A tirzepatida, do Mounjaro, imita dois. A nova geração aposta em imitar três hormônios ao mesmo tempo, os chamados triplo-agonistas. Mais alvos, mais efeito sobre o balanço energético.
Antes de seguir, um enquadramento que a empolgação costuma atropelar: quase tudo que você vai ler abaixo ainda está em pesquisa. Alguns fármacos estão em fase 2, outros em fase 3, e vários não têm aprovação da Anvisa. Datas de chegada são projeções da indústria, não garantias. Estudos em fase final já foram interrompidos antes por segurança ou eficácia insuficiente — faz parte do processo.
Vale lembrar também qual é a régua oficial brasileira hoje. A SBEM e a ABESO publicaram um posicionamento conjunto sobre o tratamento farmacológico da obesidade, elaborado por 15 especialistas, que reúne evidências sobre posologia, eficácia, segurança e contraindicações — de medicamentos já aprovados pela Anvisa. É esse o terreno firme. O resto é horizonte.
Retatrutida: o que significa passar de 20% para 30% de perda de peso
A retatrutida, da Eli Lilly, é a estrela da lista. É uma caneta semanal que mimetiza três hormônios e, em fase final de pesquisa, chegou a superar 30% de perda de peso. Um quarto dos participantes eliminou 35% do peso após pouco mais de 100 semanas de uso. Para comparação: semaglutida e tirzepatida, a depender da dose, giram ao redor de 20%.
O número impressiona porque se aproxima do território da cirurgia bariátrica. Mas o dado mais interessante para quem cuida de saúde não é o percentual. Segundo o endocrinologista Carlos Eduardo Barra Couri, pesquisador da USP de Ribeirão Preto, pacientes com pré-diabetes voltaram a ter glicemia normal. Luiz André Magno, diretor médico da Eli Lilly no Brasil, cita ainda melhoras em dor de joelho por osteoartrite, apneia do sono e controle glicêmico.
Ou seja: o ganho relevante não é o número na balança, é o que sai junto com ele. Tratar a obesidade é tratar o que vem atrelado a ela — uma lógica que já exploramos no artigo sobre quais doenças os GLP-1 tratam além da obesidade.
A previsão de chegada é 2027, "se não houver mudanças no script", como coloca a reportagem. Guarde essa ressalva.
Menos aplicações: mensais, combinações e comprimidos
Nem toda inovação mira potência. Boa parte mira praticidade — que, na prática clínica, costuma valer tanto quanto, porque tratamento que não cabe na rotina é tratamento abandonado.
- Berobenatida (Pfizer, fase 2): começa semanal e segue com manutenção mensal. Os voluntários perderam 16% do peso em pouco mais de sete meses, com melhora no exame de glicose. Para o endocrinologista Alexander Benchimol, da PUC do Rio de Janeiro, é uma medicação que pode facilitar a adesão ao tratamento.
- UBT251 (Novo Nordisk com parceira chinesa, fase 2): outro triplo-agonista, com quase 20% de redução em cerca de seis meses. Couri observa que o ensaio terminou antes de atingir um platô — o efeito real pode ser maior, e só os próximos anos dirão.
- CagriSema: combina semaglutida com cagrilintida, que imita a amilina, hormônio do pâncreas envolvido no apetite. É uma das mais próximas de virar realidade. Na sequência vem a zenagantida, que ativa as vias do GLP-1 e da amilina ao mesmo tempo.
- Comprimidos: o Wegovy oral já foi aprovado no exterior e aguarda parecer da Anvisa. O orforglipron, da Lilly, não exige jejum e não depende de cadeia fria — o que, segundo Magno, pode ampliar o acesso. Ambos podem chegar ao Brasil até o primeiro semestre de 2027, na projeção dos fabricantes.
Há ainda um movimento que muda o jogo do bolso: com a queda da patente da semaglutida, a indústria nacional já se mobiliza para lançar versões similares, com perspectiva de queda de preço numa classe que o SUS ainda não fornece.
Survodutida: quando a qualidade do peso perdido importa mais que a quantidade
Se há um fármaco nessa lista que interessa diretamente à nutrição, é a survodutida, da Boehringer Ingelheim, já em fase 3. Ela combina GLP-1 com glucagon, tem ação direta no fígado e mira a gordura visceral — aquela que se deposita no abdômen, entre e dentro dos órgãos.
Os números, segundo a reportagem: 16% de perda de peso em 76 semanas, redução de 63% do percentual de gordura no fígado e — o dado mais importante — apenas 10% do peso eliminado veio de músculo, conforme exames de imagem.
Repare no detalhe: 16% é menos que os 30% da retatrutida. E ainda assim a survodutida é celebrada. Por quê? Porque perder 16% preservando músculo e derretendo gordura hepática pode ser clinicamente melhor do que perder 30% às custas de massa magra. Como resume Benchimol, o foco na redução de gordura visceral e na preservação muscular representa um diferencial clínico importante.
Essa é a virada conceitual que vale levar deste artigo: a pergunta deixou de ser "quanto você perdeu" e passou a ser "o que você perdeu". E essa pergunta, note bem, não depende de nenhum lançamento. Ela já pode ser respondida hoje, com uma balança de composição corporal e um profissional que saiba ler o resultado.
O alerta do pesocentrismo: mais potente não é automaticamente melhor
Aqui está o trecho da reportagem que, na nossa leitura, merecia ser a manchete — e virou nota de rodapé.
O endocrinologista Bruno Geloneze, professor da Unicamp, adverte contra o que chama de "pesocentrismo". Nas palavras dele: o mais importante no tratamento da obesidade não é alcançar um peso ideal, muito menos atingir o IMC de magreza — é controlar ou reverter as doenças associadas ao peso.
E ele vai além, com uma frase que contraria o instinto do leitor diante de uma manchete sobre "mais potência": "a maioria dos pacientes não precisará usar um medicamento com uma potência tão grande". Geloneze enxerga oportunidade justamente no uso de doses mais baixas para atender a demandas mais modestas.
Leia isso de novo, porque é contraintuitivo. Um remédio que faz perder 35% do peso não é "melhor" que um que faz perder 16% — ele é diferente, e serve a um perfil diferente. Escolher o mais potente porque é o mais potente é confundir manchete com indicação clínica. Como diz Couri, o que os novos remédios oferecem é a ampliação de um arsenal terapêutico que permite personalizar ainda mais a abordagem. Arsenal maior significa escolha mais fina, não escolha mais forte.
Vale registrar que o posicionamento da SBEM e da ABESO dedica atenção justamente à complexidade do tratamento e ao estigma que cerca a pessoa com obesidade. Não é detalhe: o pesocentrismo é filho desse estigma. Quando o objetivo vira o número da balança em vez da saúde, a régua deixa de ser clínica e passa a ser estética.
O que nenhuma molécula resolve sozinha
A reportagem toca no ponto e passa reto. Ao falar da perda muscular provocada pelas canetas, ela registra que "ajustar a alimentação e incrementar os exercícios de força são parte da receita" — e imediatamente muda de assunto para o que a indústria está criando. É uma inversão que vale desfazer.
Comecemos pela física do problema. Geloneze é direto: "emagrecer e aumentar a massa magra são estados praticamente opostos, não vão acontecer concomitantemente". Quem emagrece perde gordura e perde também alguma musculatura. Isso não é falha do medicamento; é como o corpo funciona.
Agora o ponto que a fonte não faz. A survodutida preserva músculo melhor — ela não preserva músculo sozinha. Os 10% são um resultado obtido dentro de um ensaio clínico, com acompanhamento. Nenhuma molécula coloca proteína no seu prato nem faz você levantar peso duas vezes por semana. O que ela faz é reduzir a conta que o organismo cobra — e o resto continua sendo trabalho.
E aqui está o incômodo central: esperar 2027 para preservar massa magra é esperar por algo que já está disponível agora. Os três pilares não são novidade nem segredo:
- Aporte proteico adequado — e adequado significa calculado para você, não copiado de um post. Com o apetite suprimido pela medicação, comer proteína suficiente fica mais difícil justamente quando ela é mais necessária.
- Treino de força — o estímulo que sinaliza ao corpo que aquele músculo tem serventia e não deve ser sacrificado.
- Monitoramento de composição corporal — porque a balança comum não distingue gordura de músculo. Ela mostra que você perdeu 8 kg; ela não conta que 3 kg eram massa magra.
Detalhamos a estratégia completa no artigo sobre como evitar a perda de massa muscular com canetas emagrecedoras, e explicamos o papel do exame no texto sobre bioimpedância no acompanhamento do emagrecimento. O ponto que interessa aqui é outro: essa parte do tratamento é idêntica com Ozempic, com Mounjaro, com retatrutida em 2027 ou com survodutida em 2028. Ela não tem data de lançamento.
O que fazer agora, sem esperar 2027
Se você usa uma caneta hoje, ou considera usar, o cenário prático é este:
- A prescrição é médica. Semaglutida, tirzepatida e afins exigem receita controlada. O nutricionista não indica, não ajusta e não substitui o médico — atua ao lado dele.
- O acompanhamento nutricional entra desde o começo, não quando o problema aparece. Reverter perda muscular custa mais caro do que preveni-la.
- O risco de reganho é real. A própria reportagem lembra que se trata de uma condição crônica, com mais de uma causa e grandes chances de retornar quando o acompanhamento é dispensado. A medicação administra o apetite enquanto está em uso; ela não constrói hábito.
- Desconfie do atalho. A reportagem é franca ao apontar que influenciadores digitais e "charlatães de jaleco" interferiram nos rumos dessa história, com pessoas usando canetas para as quais elas nunca foram projetadas.
Se você está começando agora e quer evitar as armadilhas mais comuns, reunimos as principais no guia sobre como usar caneta emagrecedora com segurança.
Para dimensionar por que esse cuidado importa em escala, os números da Organização Mundial da Saúde ajudam: em 2022, cerca de 890 milhões de adultos viviam com obesidade e 2,5 bilhões estavam acima do peso — uma em cada oito pessoas no mundo convivia com obesidade, e o número entre adultos mais que dobrou desde 1990. A reportagem da Veja Saúde acrescenta a projeção de que, até 2035, uma em cada quatro pessoas conviverá com a condição. Não estamos diante de um nicho, e sim de um problema de saúde pública que nenhuma caneta, isolada, vai resolver.
Em Brasília, atendemos pacientes em todas essas situações: antes de iniciar, durante o uso e depois de interromper. E a conversa que temos é sempre a mesma, independentemente da molécula da vez — o que estamos preservando enquanto você perde peso, e o que vai sustentar o resultado quando a caneta sair de cena.
Perguntas Frequentes
Quando as novas canetas emagrecedoras chegam ao Brasil?
As projeções dos fabricantes apontam 2027 para a retatrutida e para os comprimidos Wegovy oral e orforglipron. São previsões, não garantias: os fármacos ainda dependem da conclusão dos estudos e da aprovação da Anvisa. Vários estão em fase 2 ou 3 de pesquisa.
A retatrutida é melhor que o Ozempic ou o Mounjaro?
Mais potente não significa melhor para todo mundo. O endocrinologista Bruno Geloneze, da Unicamp, afirma que a maioria dos pacientes não precisará de um medicamento tão potente. A escolha é médica e depende do perfil clínico de cada pessoa, não do percentual de perda anunciado.
As novas canetas evitam a perda de massa muscular?
A survodutida mostrou melhor preservação — apenas 10% do peso perdido veio de músculo. Mas ela preserva melhor, não sozinha. Aporte proteico adequado, treino de força e monitoramento de composição corporal continuam necessários com qualquer medicação, atual ou futura.
Preciso de nutricionista se estou usando caneta emagrecedora?
O acompanhamento nutricional é complementar ao tratamento médico e ajuda a proteger a massa magra, garantir aporte de nutrientes com o apetite reduzido e construir hábitos que sustentem o resultado. A medicação controla o apetite enquanto está em uso; ela não cria hábito sozinha.
Vou reganhar peso se parar a medicação?
O risco existe e é reconhecido: a obesidade é uma condição crônica, com múltiplas causas e chance real de retorno quando o acompanhamento é interrompido. Por isso o trabalho nutricional e de atividade física durante o tratamento é o que mais influencia o que acontece depois dele.
Referências
- Conheça as novas canetas emagrecedoras: mais potência, menos aplicações e músculos preservados — Veja Saúde, por Diogo Sponchiato, julho de 2026, com os endocrinologistas Carlos Eduardo Barra Couri (USP-RP), Bruno Geloneze (Unicamp) e Alexander Benchimol (PUC-Rio).
- Posicionamento SBEM/ABESO: Tratamento Farmacológico do Indivíduo Adulto com Obesidade e seu Impacto nas Comorbidades — Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia e Associação Brasileira para o Estudo da Obesidade e da Síndrome Metabólica.
- Obesity and overweight — Fact Sheet — Organização Mundial da Saúde (OMS).
Leia também
- Canetas emagrecedoras: como evitar a perda de massa muscular
- Canetas emagrecedoras além da obesidade: quais doenças os GLP-1 tratam
A nova geração de medicamentos vai ampliar as opções, e isso é uma boa notícia. Mas nenhuma delas responde sozinha à pergunta que importa: o que o seu corpo está perdendo enquanto o número cai. Essa resposta exige exame, leitura profissional e um plano feito para você. Nossa equipe em Brasília acompanha pacientes antes, durante e depois do uso de canetas emagrecedoras, sempre em diálogo com o médico que prescreve. Agende sua consulta e comece pela pergunta certa.

Conheça Priscila Queiroz
Nutrição Esportiva, Nutrição na Infertilidade, Nutrição da Saúde da Mulher
Fundadora da clínica Nutrifono, nutricionista esportivo e especialista na saúde da mulher. Atua na menopausa, endometriose, adenomiose, SOP, acompanhamento gestacional e terapia da fertilidade.
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