
Seu relógio diz que você queimou 600 kcal. Quanto disso é real?
Pesquisadores testaram sete relógios contra o método de laboratório. Na frequência cardíaca, foram bem. Nas calorias, o resultado surpreende.
Priscila QueirozVocê termina o treino, olha o pulso e lá está: 600 calorias queimadas. A sensação é de dever cumprido, e às vezes de "crédito" para comer mais no jantar. Mas quanto o relógio inteligente erra nas calorias gastas? Pesquisadores colocaram os relógios mais populares lado a lado com o método de laboratório que mede o gasto de verdade. O resultado ajuda a entender por que tanta gente treina, come o que o relógio "liberou" e não vê o resultado que esperava.
Neste artigo, a gente mostra o que esse estudo encontrou, por que o relógio acerta o batimento mas erra a caloria, em que situações o erro é maior e como usar o relógio a seu favor, sem deixar que ele decida o seu prato.
O que você vai ler nesse artigo
- O teste que comparou os relógios com o laboratório
- Por que o relógio acerta o batimento e erra a caloria
- Quando o erro é maior
- O perigo de "comer de volta" as calorias do treino
- O gasto que o relógio não vê
- Para que o relógio serve, de verdade
- Como saber quanto você gasta
O teste que comparou os relógios com o laboratório
Na Universidade Stanford, nos Estados Unidos, 60 voluntários de idades, pesos, tons de pele e condicionamentos variados usaram sete relógios e pulseiras populares ao mesmo tempo, entre eles Apple Watch, Fitbit e Samsung Gear, enquanto ficavam sentados, caminhavam, corriam e pedalavam. Em paralelo, o gasto de energia real era medido por calorimetria indireta, o método de laboratório que calcula a energia gasta a partir do oxigênio consumido (Shcherbina et al., Journal of Personalized Medicine, 2017).
Para a frequência cardíaca, a maioria dos aparelhos foi bem: seis dos sete tiveram erro mediano abaixo de 5% no ciclismo. Já para as calorias, o quadro foi outro: nenhum dos aparelhos ficou com erro abaixo de 20%. O que errou menos foi o Apple Watch; o que errou mais foi o Samsung Gear S2.
Os autores concluíram que esses aparelhos medem bem o batimento, mas estimam mal o gasto de energia, e recomendaram cautela ao usar o número de calorias em programas de saúde. Os modelos de hoje são mais novos que os do estudo, mas o princípio que explica o erro continua o mesmo.
Por que o relógio acerta o batimento e erra a caloria
O relógio mede, com um sensor de luz no pulso, o seu batimento e, com um acelerômetro, o seu movimento. Isso ele faz razoavelmente bem.
A caloria, ele não mede: ele calcula. Usa o batimento, o movimento e os dados que você digitou (idade, peso, altura, sexo) numa equação feita a partir da média de muitas pessoas. Só que a relação entre batimento e gasto de energia varia muito de uma pessoa para outra. Dois corredores com o mesmo batimento podem gastar quantidades bem diferentes, dependendo do condicionamento, do tamanho do corpo, da quantidade de músculo e de outros fatores que o relógio não enxerga.
É o mesmo problema da esteira da academia, que já discutimos em 20 minutos de esteira emagrece? O número do painel: o número parece preciso, mas é uma estimativa de média aplicada a você.
Quando o erro é maior
No estudo de Stanford, o erro não foi igual para todo mundo nem para toda atividade. Ele foi maior:
- Na caminhada, e menor no ciclismo.
- Em homens, em comparação com mulheres.
- Em pessoas com IMC mais alto.
- Em pessoas com tom de pele mais escuro, um limite conhecido dos sensores de luz.
Treinos de força, como a musculação, também costumam confundir os relógios, porque o batimento sobe de forma diferente e o movimento do pulso nem sempre reflete o esforço.
O perigo de "comer de volta" as calorias do treino
Muitos aplicativos somam ao seu "orçamento" de comida as calorias que o relógio diz que você gastou no treino. Se o relógio superestima o gasto, você come a mais achando que está dentro da meta, e o emagrecimento trava sem explicação aparente.
O erro também pode ir para o outro lado. Quem treina muito e confia em números subestimados pode comer de menos e entrar em baixa disponibilidade de energia, com cansaço, queda de rendimento e lesões, um quadro que o Comitê Olímpico Internacional chama de RED-S.
Nos dois casos, o problema é o mesmo: deixar uma estimativa com erro de 20% ou mais decidir quanto você come.
O gasto que o relógio não vê
Existe outro motivo para não levar o número do treino tão a sério: ele é só uma parte do seu gasto do dia, e geralmente não é a maior. O gasto total se divide em três grandes blocos:
- O gasto de repouso: a energia que o corpo usa para respirar, manter o coração batendo, a temperatura e o funcionamento dos órgãos. Para a maioria das pessoas, é a maior fatia do dia, mesmo para quem treina.
- A digestão: o corpo gasta energia para digerir e processar o que você come, e a proteína é o nutriente que mais exige nesse processo.
- O movimento: aqui entram o treino e também tudo o que você faz fora dele, como andar, subir escada, ficar de pé, arrumar a casa.
Muita gente se concentra no treino e esquece o resto. Uma hora de academia pode pesar menos do que a diferença entre um dia sentado no escritório e um dia em movimento. E o gasto de repouso, a maior parte, varia bastante de uma pessoa para outra, conforme a quantidade de músculo, a idade, os hormônios e o histórico de dietas.
É justamente esse gasto de repouso que o relógio não tem como medir, e que a calorimetria mede diretamente. Por isso, saber o seu número de repouso costuma mudar mais o plano alimentar do que qualquer ajuste no treino.
Para que o relógio serve, de verdade
Nada disso significa jogar o relógio fora. Ele é ótimo para:
- Acompanhar o batimento e treinar nas zonas de intensidade certas.
- Comparar você com você mesmo: se o mesmo treino, no mesmo relógio, mostra batimento menor com o tempo, seu condicionamento melhorou.
- Contar passos e mostrar se você se mexeu mais ou menos ao longo da semana.
- Monitorar o sono e a regularidade da rotina.
Use o número de calorias como uma tendência, não como uma conta exata. E nunca como "licença" para comer.
Uma forma prática de fazer isso: compare semanas, e não treinos isolados. Se numa semana o relógio mostra um gasto bem maior do que na anterior, provavelmente você se mexeu mais, mesmo que o número exato esteja errado. Já o valor absoluto, "gastei 600 calorias", é o que menos merece confiança. E mantenha o seu peso, a altura e a idade atualizados no aplicativo, porque um cadastro desatualizado aumenta ainda mais o erro.
Como saber quanto você gasta
Existem dois níveis de precisão possíveis fora do pulso. O primeiro é a estimativa pela fórmula, que você pode fazer na nossa calculadora de calorias. Ela também é uma média, mas pelo menos você sabe de onde vem o número.
O segundo é medir. A calorimetria indireta, o mesmo método que os pesquisadores de Stanford usaram como referência, mede quantas calorias o seu corpo gasta em repouso a partir do oxigênio que você consome. Com esse número real, o nutricionista calcula o seu gasto do dia e monta o plano alimentar a partir do seu corpo, e não da média que o relógio usa.
Aqui na Nutrifono, em Brasília, o exame é feito na própria clínica, na Asa Sul, e a equipe de Nutrição Esportiva usa o resultado para ajustar a alimentação ao seu treino.
Perguntas Frequentes
O relógio inteligente mede as calorias gastas com precisão?
Não. Em estudo de Stanford com sete aparelhos, nenhum teve erro abaixo de 20% nas calorias, embora a maioria medisse bem a frequência cardíaca.
Qual relógio é mais preciso para calorias?
No estudo, o Apple Watch teve o menor erro e o Samsung Gear S2, o maior. Mesmo o melhor errou mais de 20%, então nenhum deve ser usado como conta exata.
Devo comer as calorias que o relógio diz que gastei?
Não é recomendável usar esse número como crédito de comida. Como a estimativa pode errar bastante, o plano alimentar deve partir do seu gasto real.
O relógio erra mais em que tipo de treino?
No estudo, o erro foi maior na caminhada e menor no ciclismo. Musculação também costuma confundir os aparelhos.
Como medir quantas calorias meu corpo gasta?
Com a calorimetria indireta, que mede o gasto em repouso pelo oxigênio consumido. É o mesmo método usado como referência para avaliar os relógios.
Leia também
- 20 minutos de esteira emagrece? O número do painel
- Calorimetria indireta: o exame que transforma o emagrecimento
Referências
- Shcherbina A, et al. Accuracy in Wrist-Worn, Sensor-Based Measurements of Heart Rate and Energy Expenditure in a Diverse Cohort. Journal of Personalized Medicine, 2017. doi:10.3390/jpm7020003 (via PubMed)
Quer trocar a estimativa do pulso pelo número real do seu corpo? Agende sua consulta e faça a calorimetria na Nutrifono, na Asa Sul.

Conheça Priscila Queiroz
Nutrição Esportiva, Nutrição na Infertilidade, Nutrição da Saúde da Mulher
Fundadora da clínica Nutrifono, nutricionista esportivo e especialista na saúde da mulher. Atua na menopausa, endometriose, adenomiose, SOP, acompanhamento gestacional e terapia da fertilidade.
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